London Calling

   IMG_4905_Facetune_14-06-2018-20-08-38❤ Amores,

Não posso dissertar sobre o balanço 6 meses depois de me ter mudado para Londres sem vos contar as razões que me levaram a mudar-me. Nunca falámos sobre isto, pois não?

 

Porque é que saí de Portugal?

Para quem não sabe, eu sou médica dentista. A minha formação académica, desde que terminei o mestrado, focou-se em Odontopediatria e mais tarde em Ortodontia. Isto quer dizer que o meu target de pacientes é maioritariamente crianças e adolescentes. 

A classe médica em Portugal é o Santo Graal do mundo académico, diria eu. Quase se faz vassalagem a um médico, mais pelo título do que pela competência. Pessoalmente, sempre me debati muito com a questão de não ter uma imagem “compatível” com o que se espera de uma médica. Não por parte dos pacientes, que me vêem de bata e uniforme, mas por parte dos colegas.

Uma Odontopediatra tatuada e com piercings está taco-a-taco com um Nazi em missão em África. 

A maioria dos colegas da minha geração não sente esta “comichão” mas a área da Medicina Dentária é reinada por dinossauros preconceituosos. E são, quase sempre, esses que dão emprego à malta nova.

Posto isto, e por muito resistentes e seguros que sejamos: não mata mas moi. Atingi este estado de “eu não tenho necessidade de me sujeitar a isto”. Falamos de bullying descarado, que como qualquer tipo de violência, afecta o nosso equilibrio. Mas também falamos do “diz-que-disse”, do “olha aqui esta miúda do Instagram, é dentista e trabalha com crianças!”, que blasfémia!

Eu quis sair desta aldeia. Não me interpretem mal. Mas sim, aldeia. 

Por outro lado, em países como Portugal, Espanha, Itália, a vida laboral arrasta-se para horários “pós-laboral” com facilidade. Isto é, dar consultas até às 21:30/22:00h é o normal para um médico dentista. O público não agiliza os seus horários em função das consultas, as consultas é que se estendem até horários em que o público tenha disponibilidade para ir.

Isto, associado ao facto de trabalharmos à percentagem, estrangula-nos a vida pessoal e familiar. Eu podia sair mais cedo? Podia. Facturava metade por mês. Sendo que trabalhei quase 5 anos a 30%. Sim, 30%. As contas continuariam a ser as mesmas. Com o plus de ter de pagar quotas à ordem, seguro de responsabilidade civil e de acidentes de trabalho, segurança social e IRS. Somos trabalhadores independentes. Cheguei a um ponto em que tinha 1200€ de despesas fixas. Trabalhar 6 dias por semana excluía-me de imensos eventos familiares e sociais.

No dia em que a minha mãe foi operada, na altura doente de cancro, eu estava a trabalhar.

Em suma, procurei, além fronteiras, uma solução que me oferecesse mais tolerância, qualidade de vida e remuneração. 

 

Porquê Londres?

1 – Obviamente pela facilidade na língua. O meu inglês não é nativo, mas comunico tranquilamente. Aprender francês, holandês ou alemão exigiria muito mais trabalho.

2 – Outra razão é a proximidade de Lisboa. Estabeleci que, no mínimo, estaria junto dos meus pais de 2 em 2 meses. Na verdade, estamos a 2 horas de avião. É, como costumo dizer-lhes, quase mais perto do que morar no Porto.

3 – Por último, porque é uma cidade incrível. Cheia de gente de todo o mundo, cheia de energia.

Balanço até agora?

1 – Vamos começar por desmistificar a questão do custo de vida ser estupidamente mais elevado.

O que é realmente caro aqui são as rendas e os transportes. 

Supermercado – é SUPER semelhantes. Mesmo. Bens essenciais como água, arroz, massa, leite, carne, é exactamente igual. Essas frescuras vegans e gluten-free são ligeiramente mais caras mas não me choca. Tudo proporcional ao que são os rendimentos normais aqui.

Entertenimento/Restauração – Obviamente que depende dos sítios e das áreas. Claro que se forem jantar ao Soho vão pagar bem. Tal e qual como se forem jantar a Cascais ou à Bica do Sapato. Os valores de um jantar, de uma ida ao cinema são muito, muito semelhantes.

2 – No one gives a shit about your looks

“As long as you have your job done, no one cares”. E era mesmo isto que eu procurava. Não descoro a bata nem o uniforme clínico, apresento-me sempre nas clínicas de blazer e salto alto, apenas porque tenho o “chip tradicional português”. Aqui o médico raramente é chamado de Dr. 

Somos pessoas iguais às outras. Só nos é exigida competência profissional e não um comportamento social modelo.

 

3 – A remuneração é francamente melhor e a horas

Não há pagamentos em atraso. Trabalhas, ganhas. Certinho como a morte. O que contrasta imenso com a realidade que vivi em Portugal.

 

4 – Sempre que ouvimos falar português, é um acontecimento!

É como se automaticamente houvesse um Bonding apenas e só porque partilhamos a mesma nacionalidade. É um fenómeno muito giro de se viver, honestamente. As pessoas unem-se muito num poder de entre-ajuda incrível.

 

5 – Estamos todos no mesmo barco

95% das pessoas que conheci até agora não são britânicas. O que torna a experiência muito mais apetecível. Vamos sabendo de praticamente todos os países da europa e partilhamos também a experiência de estarmos todos longe dos nossos. Há automaticamente uma tolerância e vontade de integrar toda a gente. De uma forma ou de outra, estamos todos na mesma situação.

 

4 – A nossa percepção do inglês é Americano.

O British Accent torna o inglês uma nova lingua. É muito fácil entender qualquer pessoa que fale inglês desde que… não seja britânico. O ouvido não está treinado porque toda a informação que nos chega sob a forma de filmes, sérias, musicas, é praticamente tudo dos Estados Unidos.

 

5 – Andar de mochila é average, em todas as idades

Lisboa tem uma área de 100km². Londres tem 1572km². Trabalhar a uma hora de casa é o normal nesta cidade. Mas a malta rentabiliza o tempo nos transportes. O truque para as meninas é levarem os saltos, a placa do cabelo a pilhas e toda a makeup numa mochila. Todos os sítios a que fui, os bengaleiros são gratuitos. 

 

6 – A noite começa incrivelmente mais cedo e acaba perto das 2:00am (na loucura)

Não há cá jantares até à meia-noite. É normal jantar as 19h e às 22h já estarmos a pedir ao DJ  a Pon de Replay, da Rihana! O que, na verdade, ainda que haja uma ressaca a acontecer, faz com que o dia seguinte seja mais rentável.

 

5 – Não tenho morrido de saudades

Não sou, por natureza, uma pessoa muito saudosista. Tenho tido a sorte de ter amigos a visitarem com frequência, de ter conhecido pessoas fantásticas, de ter uns pais mega easy going que não me bombardeiam com videochamadas de hora a hora. Não adoro bacalhau nem cozido à Portuguesa. O que mais sinto falta é de conduzir e de pagar ubers a menos de 15€, quando venho da noite. 

 

6 – Burocracia

Se achava que Portugal ganhava em papelada, já mudei de ideias. Os ingleses precisam de papeis para atestar tudo. Cartas para tudo. Autorizações, assinaturas, tudo. 

 

 

E porque o texto já vai longo, vamos deixar estas como as impressões-chave até agora. No geral, estou muito contente com a decisão de mudar. Qualquer mudança assusta. Dá um medo que nem vos digo. Mas a estagnação atrasa a evolução, traz angústia e cotão. 

Beijo enorme, amores ❤

 

S.

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