Relações abusivas?

Começa a ser urgente falar sobre isto.

Nos últimos meses não foi preciso estar mais atenta para me aperceber que isto das relações abusivas estão para o mundo como o aquecimento global está para o Trump: mesmo que haja provas físicas que existem, podemos achar sempre que é uma cabala da maioria.

Mas não é.

Sabem, eu considero-me uma miúda bem resolvida. Confiante e confortável dentro da sua realidade. Acredito que sou capaz de me auto-avaliar numa serie de coisas, de ser objectiva no meu julgamento sobre mim e sobre as minhas atitudes. Sobre as minhas intenções.

Posso dizer-vos que esta autoconsciência (como qualquer outro tipo de sapiência) é algo que se aguça com a idade mas desde que me conheço que me considero emocionalmente capaz. 

Acontece também que isto do amor e da paixão (e o raio que os parta ao meio) quando é descontrolado, é do caraças. É um frenesim de emoções que a qualquer momento parece que vamos vomitar o coração, os pulmões e o pâncreas. Tudo ao mesmo tempo, numa mixórdia confusa e feia, como o amor descontrolado deve ser. 

Quem nunca?

O amor descontrolado estrangula o discernimento. Hiperbolizamos uns sentimentos, menosprezamos outros. Vamos relativizando. Vamos usando uma peneira que parece que foi boicotada.

Estamos a usar uma peneira de buracos disformes e variáveis, bêbedas ao estilo Urban Beach, numa carrinha de caixa aberta, em andamento. Tem tudo para dar certo, não é?

 

A minha história pessoal:

Esta relação durou cerca de 3 anos. Era avassaladora. Tudo o que tinha de bom, tinha de mau. Passávamos do “vamos casar e ter filhos amanhã” para “és a pessoa que eu mais odeio na vida” dentro da mesma hora. Literalmente.

Quando existiam cenas de ciúmes eu relativizava. No limite, achava que ele tinha alguma razão. Eu de facto, mulher respeitável que sou, não tenho necessidade nenhuma de usar um grande decote. Também não tenho necessidade nenhuma de ir sair com as minhas amigas solteiras. “Já sabemos porque é que elas vão sair à noite, não é?”. E ex-namorados? Há alguma necessidade de manter uma relação com eles? Também podemos cortar com isso. “É dispensável”.

Eu cheguei a cruzar-me com amigos na rua ou em festas e, quando estava com o meu (na altura) namorado, fingia que não os conhecia.

O simples facto de serem rapazes era razão suficiente para ser um problema, caso os cumprimentasse. “Conheces de onde?”, “Já se comeram?” eram perguntas da praxe.

Se estivesse muito maquilhada já sabia que ía ouvir “Isso é para impressionar alguém?”. Quando bebia um copo, “odeio ver mulheres a beber”. Quando fumava um cigarro “Odeio ver mulheres a fumar”. E eu escolhia não ter problemas. Evitava o conflito, evitando comportamentos que eu sabia de antemão que o podiam desencadear.

Então não vestia o que eu queria, não usava batom muito “excêntrico” para não chamar a atenção, não fumava em frente a ele, não bebia com ele, não cumprimentava os meus amigos quando estava com ele. Também não entendia como ele era tão popular entre os seus amigos e com os meus era tão introvertido e desinteressado. 

A minha vida social era com ele. Única e exclusivamente. Afastei-me do meu núcleo duro para poder dedicar-lhe toda a atenção e tempo que ele merecia. Perdi a noção que estava a dar de comer a um monstro chamado “Dependência emocional” e que ao mesmo tempo deixava morrer à  fome as relações que mantinha há anos com os meus amigos. 

Quando calhava de sairmos com mais pessoas, sentia-me responsável por ele. Na verdade, mimetizava o comportamento dele.

Se ele estivesse confortável e extrovertido eu também estava divertida. Se ele estivesse isolado, eu isolava-me com ele, para que não se sentisse sozinho.

Chegamos ao ponto em que, numa das inúmeras vezes que acabamos, vi uma mão levantada a mim. 

A manipulação é passível de ser usada com toda a gente. Nós nem nos apercebemos que nos estamos a sucumbir aos julgamentos de outra pessoa. É um processo suave, lento. A outra pessoa vai sabendo em que botões carregar e a que velocidade.

É preciso que definamos o que de facto consideramos razoável. Fazer cedências dentro de uma relação é incontornável. É, habitualmente, um fio condutor para que nos adaptemos, para que nos conheçamos, para que cresçamos juntos. É preciso manter o discernimento para entender o que são cedências e o que é submissão. O que é anulação pessoal. O que é dependência. 

 

S.

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