Living Together Apart

Este post está mais do que atrasado né, Jones? ❤

Mas sendo muito muito honesta, estou quase a mandar isto tudo às urtigas porque enfim, partilhar tem tudo de bom mas o que é mau é muito mau.

Outros Carnavais, sobre os quais reuniremos mais tarde. Se ainda aqui andar.

Estava pendente um post onde vos contava, com a distância de segurança que considerei mandatária, a minha decisão de deixar de morar junto com o meu namorado.

Junto ou junta? Não interessa. O que interessa é que acabei sozinha num T2, em Campo de Ourique.

Quase que oiço daí “Campo de Ourique? Olha que chique, a soturda!”

Mores, o meu apartamento era mais velho que a Donatela Versace. Os meus vizinhos tinham uma esperança média de vida de mais 5 anos, na melhor das hipóteses.

As escadas eram de madeira, os caixotes do lixo estavam colocados naquele microscópico hall de entrada e proporcionavam um aroma a “vida real é isto, né?” sempre que punha as chaves na porta.

A minha querida mãe, que viveu sempre sem grandes mordomias nesse maravilhoso sitio que é a Reboleira, quando entrou no prédio exclamou “A sério que vens viver para aqui?”.

Epá, Isabel (a mãe) desculpa lá se sou recibos verdes.

Se eu podia ter um T5 em Benfica ou em Casal de Cambra pelo mesmo valor da renda? Se calhar podia. Mas eu queria Campo de Ourique. E porquê? Porque eu adoro toda a maravilhosidade da zona de conforto. Tudo o que ela previsivelmente me dá. Adoro tudo sobre ela.

E, para quem não sabe, a minha vida foi toda em Campo de Ourique. Desde o infantário até ao 12º. O meu primeiro teste de português e o meu primeiro charro. Foi tudo lá. Conheço bem. Sinto-me segura. Era isso que eu queria.

Queria porque sou naturalmente medrosa mas também porque tinha a ansiedade a uma velocidade monstra. Estava a sair de casa do meu namorado, com quem vivi 2 anos.

Estava a pôr tudo em risco. Estava sob a reprovação imediata, constante e clara da minha familia.

Era tudo muito tremido. Nem eu sabia bem o que estava a fazer. Só sabia que queria viver sozinha. Que queria estar sozinha. Que precisava de estar sozinha.

Lembro-me de sair de casa dos meus pais e imediatamente entrar numa outra casa que era tudo menos minha. O meu namorado tinha a casa dele e decidimos que estávamos na fase certa para morarmos juntos. Então, como tanta outra gente nesse universo loukitxo, avançámos com a ideia brilhante de dividir o mesmo copo para as escovas de dentes.

Isto parece tudo normal. O ciclo natural das coisas é esse? Diz que sim. Mas eu não sou as coisas. Nem ele. E nós tentámos, malta, nós tentámos muito. Conseguimos 2 anos a dividir o mesmo tecto, sem nenhum de nós ter efectivamente tendências homicidas. Ou talvez tenhamos tido essas tendências mas somos pessoas do bem e nenhum de nós concretizou.

Um dia sentei-me à mesa da sala (dele), a fumar um cigarro, com aquela cara de pânico mas naquela tentativa tão inglória como feminina de  “eu ‘tou tranquila, olha aqui eu tranquila”. E disse pânicó-tranquilamente “Vou procurar uma casa para mim”.

E foi isto. Ele aceitou bem. Estamos em comprimentos de onda diferentes. Em fases da vida diferentes. Há que aceitar isso. Com pânicó-tranquilidade.

E iniciei uma busca desenfreada por casa. Em Campo de Ourique. Eu queria um cão. Ele não queria. Eu queria montar e desmontar móveis. Ele tinha tudo arquitectado em casa, há anos. Eu queria ter uma pilha de loiça para lavar ao fim-de-semana porque durante a semana estou cansada. Ele não era fã de loiça por lavar. Eu não queria abdicar do estilo de vida que levava por não pagar renda mas não tinha opção se também queria respeitar os meus timmings. Enquanto pessoa, enquanto mulher. Aquela não era a minha altura para dividir o mesmo espaço. Nem a dele. Esse discernimento demorou a chegar.

Assumir que viveremos separados depois de vivermos juntos é escolher o paninho com que enrolamos o cadáver da nossa relação, para ir bonito e composto para o caixão.

Sem grandes certezas do que acontece depois, avançámos casualmente com uma conversa ali outra aqui com os amigos. Claro que, se nós não tínhamos escolhido o paninho ainda, escolheram eles nessa altura. Na verdade, olhavam para nós com aquele ar condescendente de quem sabe perfeitamente que isto não vai dar em nada daqui para a frente, mas nós, coitados de nós, ainda não nos tínhamos apercebido.

Eu segui ignorando o óbvio. O Pedro, suspeito que nunca viu condescendência nenhuma em olhares nenhuns.

Ultrapassada a conversa com amigos, que eram conversas encadeadas em jantares, cafés, nada oficial como é obvio, vem o anúncio, esse oficial, aos meus pais.

Não tinha como não ser um “preciso de falar convosco”. Os meus pais planearam ao pormenor a minha vida ideal, desde sempre. E, até à data, tudo corria conforme os planos. Tentei desistir da faculdade umas 3 vezes e conseguiram sempre demover-me. Tentei despedir-me da clínica onde estava umas 3 vezes e conseguiram sempre demover-me. “A vida também é aceitar aquilo que não gostamos e para o qual não estamos preparados”. Dizia-me a minha mãe.

Permitam-me discordar. A vida é identificar o que não gostamos, discernir para aquilo que não estamos preparados mas aceitar não é obrigatoriamente viver com isso.

É claro que só assumi e concretizei a minha vontade depois de muito choro e noites sem dormir. Depois da minha mãe me dizer “eu também teria gostado de viver sozinha antes de viver com o teu pai, mas não pude! E sou feliz!”. Sim mãe, mas eu posso. E vou ser feliz, sendo feliz com o que achar que me faz feliz. Porque eu posso.

Arranquei para o meu T2. O meu T2 era uma areia movediça de praí 40% do meu salário habitual. (Sim, habitual porque trabalhar à percentagem é viver nessa adrenalina da vida adulta né, mores).

Acrescentava ao final do mês as despesas da praxe, o dístico de moradora para o estacionamento, o gasóleo e enfim, deixei-me andar sem sofá uns 6 meses porque continuava a preservar jantares e idas ao lux. Prioridades.

Lembro-me bem de ver televisão no chão, com o Franklin ao colo, tinha ele uns 3 meses. De ter um frasco de nutella e uma das 3 colheres de sobremesa que a minha mãe me tinha oferecido “para a casa nova”. E olhem, estava feliz. Era mesmo aquilo que eu queria.

Qualquer móvel do Ikea era uma pequena vitória. Trazer os moveis para o 2º andar, sem elevador era um pretexto para passar um domingo de gargalhadas com as minhas amigas. E olhem, tinha 3 colheres, uma cama e um roupeiro. 2 amigas na sala a fumarem cigarros e um cão de 3 meses. E olhem, estava feliz.

O processo de construção do espaço foi um paralelo para o meu próprio processo de construção. Parece poético-lamechas, mas é verdade. Toda a vez que via decorações no pinterest, batia-me o coração pela Zara Home. Mas tinha de pagar a revisão do carro e todos aqueles fanicos por vasos e prateleiras tinham de esperar. E faz bem. Fez-me bem.

Vivi 2 anos incríveis na minha casa em campo de ourique. Dei festas, limpei uma sanita pela primeira vez. Arranjei o meu próprio esquentador, a determinada altura. Senti-me uma rock star quando consegui ter agua quente de novo.

Fui multada montes de vezes por mau estacionamento e isso fez com que deixasse de comprar aqueles ténis. E olhem, estava feliz. Não no imediato, mas no final do dia. Quando me sentava no chão da varanda onde so cabia eu e o Franklin (mais tarde o Brooklyn arranjou forma de cabermos os 3) fumava o meu ultimo cigarro do dia e pensava “este foi o melhor dia da minha vida”.

 

S. ❤

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