Isto não é um post de esquerda

 

 

Agora que a poeira assentou, que já não sinto a minha veia da testa a latejar, vamos conversar sobre isto,  Jonies.

 

Temos vindo a reunir cada vez mais vezes para partilhar convosco mais do que os saldos da Zara. Não sei se isto é um processo natural a surgir com a idade ou se a minha necessidade fisiológica de me manter um ser pensante, em português. É que aqui não reúno com as minhas amigas para babosear sobre as noticias. Então parece-me que vocês estão (justamente) a ocupar o lugar delas, na mesa.

Portanto, peguem na vossa caneca de chá ou chocolate quente, tragam umas bolachas para a sala e falemos de coisas importantes, bem juntas nessa vida ❤

 

Isto aconteceu, o Bolsonaro ganhou, por muito que me custe a acreditar e aceitar.

É importante separarmos o público de Bolsonaro em dois grandes grupos:

  • Os reais fascistas e preconceituosos
  • Os desinformados que precisam de um rebanho para sobreviver

 

Não sei qual dos dois grupos me assusta mais. Não sei se o segundo grupo não tem para lá para o meio alguns do primeiro grupo envergonhados.

O que interessa agora é consciencializar-nos que isto está a acontecer um bocadinho por cada canto do globo: Bolsonaro no Brasil, Trump nos USA, Orban na Hungria, Erdogan na turquia, Putin na Russia, Kim Jong-Un na Coreia do Norte, Duterte nas Filipinas.

Isto está a acontecer. Parece mentira. Todos estes anos de evolução humana no que toca a conquistas sociais, igualdade, direitos humanos, está agora a fazer um rewind tenebroso na História dos homens. 

Bolsonaro ficou conhecido por partilhar publicamente frases que espelham as suas crenças e os valores com que rege a sua vida. As mais chocantes de teor sexista, racista, xenófobo e preconceituoso. O apelo ao ódio está em todas as suas iniciais aparições “políticas”.  Começou por chocar. Por ser mal falado. Começou por ser aquela personagem na trama sobre a qual pensamos “A sério que ele disse isto?”.

Mas, esses valores estão plantados em mais gente para além dele, que até ouvirem gritos de liderança, o que pensam e acreditam ficava calado por medo de julgamento. Quando surge um líder (seja de direita ou de esquerda) que se apresenta extremista, dando força a todas as raivas, ódios e ignorâncias, conduz todas as formas de violência e afirmação radical  à superfície da população.  E é exactamente deste ponto que estamos a partir.

Estes líderes, para além de raivosos, são pessoas inteligentes do ponto de vista social.

Conhecem todos os corredores da manipulação de massas. Sabem que o medo é a força motriz de todos os grupos enfurecidos.

Sabem que a ignorância é o fuel que precisam para dar energia às suas máquinas. E trabalham-nos. Trabalham-nos melhor do que ninguém. Entrar nas cabeças das gentes, ampliar preconceitos, cumprimentarem saudosamente ditaduras antigas, pintar que a ordem e o progresso se fazem com disciplina violenta que, antigamente era à séria e isto agora é só libertinagem.

O que me revolta é que, a ânsia de mudança cegue o discernimento para que tipo de mudança estamos a contribuir. E os pequenos fascistas saíram da toca. Sem medo. Meio confusos e meio burros, diga-se.

Apoiam agora os Bolsonaros da vida, sem medo porque alguém grita o que queriam gritar também. Sem grande noção do que virá depois, apoiados na esperança que andar para trás lhes trará a paz que acreditam ter existido antes.

Curiosamente, de todos os posts de “fascistas da época” em que tropecei, pelas datas de nascimento e pela tribo social de que fazem parte, sei que nenhum deles efectivamente experienciou uma ditadura. E ainda bem. Mas todos eles parecem acreditar que um estado totalitário seria bastante melhor que este em que vivem. 

 

Tudo nisto é confuso. Nada disto me parece fazer sentido. Pelo simples facto de me parecer que não fazem ideia do que estão a defender. Queriam uma bandeira para brincar e vai na volta até nem gostam de “pretos” portanto, porque não esta bandeira? 

 

Isto não é um post de esquerda nem de direita. Eu, pessoalmente, acredito na felicidade. E a felicidade é poder-se ser quem se quiser ser, onde se quiser ser, sem que isso arranhe a realidade do outro. Eu, pessoalmente, nunca me senti arranhada pela cor de ninguém, pelo beijo de ninguém. E até acho que é fisicamente impossível que este tipo de coisas arranhe, fisicamente, efectivamente alguém.

A educação e o progresso fazem-se no sentido de educar as massas e não de as vendar. De lhes dizer que está tudo bem não gostarmos de massa com peixe e ainda assim lhe sentirmos o cheiro na cozinha, desde que ninguém nos obrigue a comer. É simples assim.

Estamos a dar passos atrás. Na evolução. Na educação. Na tolerância. E se vocês não estão revoltados com isto, então são irresponsáveis.

 

Sobre as e os influencers dessas redes que se mantiveram calados, só posso dizer que lamento. Têm uma arma poderosíssima, têm um público. Podem conduzi-lo, informa-lo, ajuda-lo e finalmente, fazer uma real diferença com a sua presença. E ficaram calados/as. Lamentável. 

 

Summer ❤

 

 

2 thoughts on “Isto não é um post de esquerda

  1. Gostei muito do teu artigo e a meu ver tocaste num ponto muito importante que é: a maior parte das pessoas que apoia o Bolsonaro, não o apoia por este ser alguém integro e com princípios que irá combater a corrupção, mas sim por se identificarem com as suas ideias preconceituosas e extremistas. Esta é a minha opinião…

    Curiosamente escreve-mos um post no mesmo dia sobre o mesmo assunto, mas numa vertente diferente, e tu estás por lá 😉

    Um beijinho
    Cátia Vilas Boas

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    1. Obrigada Cátia por teres lido. Fico contente que te identifiques com o que escrevi. Andamos a atear fogos pelo mundo todo, infelizmente.

      Vou dar uma espreitadela ao teu post *

      Mega beijinho

      Like

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