Menos TVI, muito menos

Eu tinha planeado um daqueles posts com a minha reflexão sobre o que 2018 me trouxe e o que me levou. Tinha até partilhado convosco no meu stories.

Mas vai daí e a TVI deu-me as voltas ao estômago e intestinos e demais orgãos anexos. Juro que tive dificuldade em adormecer ontem.

E juro também que se há coisa que eu faço bem e rápido é adormecer.

Pois então, o assunto já está polido de tanto toque que já levou. Mas eu vou dar o meu na mesma.

Estou aqui na ilha, mas tento não me alienar por completo das noticias nacionais. Porque enfim, uma pessoa fica descrente mas não se “desnacionaliza”.

E, dando uso a isto que é influenciar, sei que o meu público não são propriamente os velhos eruditos que lêem 5 a 10 livros por semana e se debruçam diariamente sobre as questões do mundo. Ainda assim também acredito que o meu público não são as “silly girls” que habitam a bolha do “unboxing, makeup e design de interiores”.

Ora, amores, o “cidadão Mário Machado”, como está escrito no comunicado que a TVI emitiu recentemente, foi, pasmem-se, dar um ou dois dedos de conversa a esse enorme fenómeno da (contra) informação e (des) entretenimento que é o programa Você na TV.

Se ele tivesse ido apresentar uma receita do Lidl já era mau, mas não, ele foi precisamente dar os seus 5 centimos de opinião pessoal. Tá montado o circo. Assim bem ao estilo TVI.

Acabo de perder uns preciosos 5 minutos a pesquisar sobre esta entrevista ao cidadão Mario Machado. Percebi que o video oficial deste entrevista foi apagado do site da estação. Nada que não se encontre no youtube. Confesso que não terminei o video. O meu plafon para estupidez não se pode esgotar na primeira semana do ano.

Li o artigo publicado no expresso, que até partilhei convosco no meu stories também.

E fui directa ao comunicado escrito no site da TVI, pelo director de informação, Sérgio Figueiredo.

No comunicado podemos ler:

Entre os direitos, liberdades e garantias fundamentais que a programação da TVI respeita encontra-se a liberdade de expressão. A liberdade de expressão é um valor com proteção constitucional, com dignidade de liberdade fundamental, próprio de uma sociedade tolerante com a diferença e absolutamente essencial para o correto funcionamento do nosso sistema político e para o livre desenvolvimento da personalidade de cada um.

Ora, tudo muito bonito. Para burros. Que, desculpem se vos choca, é capaz de ser 90% dos espectadores desta estação.

O que se passa aqui é exactamente o mesmo fenómeno que se passou com a eleição do Trump e o Sim ao Brexit. Trabalhar a faixa social que não diz bá-bá duas vezes. Que infelizmente continua a predominar, nestes anos de evolução Darwiniana.  Portanto os burros. Está a TVI como peixe na água. Mestre na manipulação de ideias dos  que, natural ou não naturalmente, comem todos os biscoitos que os media lhes servem como se fosse caviar.

Mas querem saber? Não, isto não é liberdade de expressão.

Isto é tempo de antena a quem, sem pudor, se afirma extremista. A quem, sem pudor, defende valores que vão exactamente contra aquilo que é uma sociedade democrática e de igualdade. E com tantas batalhas travadas e a maioria delas não vencidas, o local a que chegámos hoje de tolerância e respeito pelo outro, não sendo o ex-libris da evolução social, é consideravelmente melhor do que o que ocupávamos há 20 anos.

Dar tempo de antena ao cidadão Mario Machado é mais uma facada no corpo cansado de quem luta pela igualdade étnica, de género, de orientação sexual e religiosa. É munir de raiva e revolta os que pouco ou nada tem acesso a mais informação para efectivamente perceberam que a sua desgraça não é causada pelos emigrantes, pelos gays, pelos trangéneros, pelos libertinos. A sua desgraça é sua. Mas a TVI não quer saber do real efeito do que difunde. Só quer difundir. Ganhar. Combater. E isto da Tininha ter bazado é o inicio do vale-tudo.

O que me choca mais nisto tudo é que, por amor a um salário, um assumido gay não só não se recusa a receber no seu “lendário” programa este escudo de extrema direita como permanece impávido e sereno a compactuar com este carnaval.

O homem teve preso por estar relacionado com o homicídio de um africano. O homem diz que precisamos de um salazar. E um assumido gay que já sofreu e sofre na pele a descriminação e descredibilização constante presta-se a este Carnaval? Mas afinal está tudo bem? Afinal podemos dizer que os pretos deviam ser todos mortos ou extraditados, que a homossexualidade é um desequilíbrio mental, que os refugiados vão explodir com esta merda toda. É liberdade de expressão né? Eu sei que ele não disse isto. Mas ele é a cara disto. E vocês deram-lhe tempo para dizer que afinal, está tudo bem, ele está só a expressar as ideias dele.

Não, não esta tudo bem. Vocês são uns atrasados mentais.

Summer e a sua liberdade de expressão

2 thoughts on “Menos TVI, muito menos

  1. Um mundo livre é um mundo de opções, a verdade é que independente das ideias de alguém, boas ou más, se queremos viver numa sociedade livre temos que poder discutir e chegar às nossas próprias conclusões, mas para isso precisamos ter livre informação, livre de pessoas que pensem como tu , os nazis são maus podes dizer que foi mau gosto da parte deles , mas não fizeram nada de errado além de jornalismo imparcial , coisa que vem estando em falta aqui em Portugal , outras ideologias extremas são defendidas pelas mesmas associações que se opõem ao “nazismo” tu não és dona da razão e não decides o que nós podemos ou não podemos ver, lá porque não concordo com alguém não significa que não queira ouvir o que ele ou ela tem para dizer , ao falar , ao discutir ideias ,encontra se soluções , ao impedir essas ideias gera se extremismo e outras forças iguais ou piores ao nazismo ganham força. Na tua tentativa de parecer uma pessoa boa acabas difundido filosofias más. O mundo é cinzento não é preto e branco. Alguém que automaticamente chama burros a quem não concorda com as suas ideias não tem fundação moral para falar acima da sua medida .

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    1. Honestamente Joel, eu concordo contigo em imensa coisa. Concordo que temos de ter acesso a todas as correntes para escolhermos a nossa, concordo que não sou dona da razão, concordo que não é por não apoiar ou compreender uma ideia que me deva recusar a ouvi-la e concordo que não devia chamar nomes à malta por dá cá aquela palha. Ah, também concordo que a minha fundação moral é muito, muito suspeita. Não acredito no entanto que tenha falado acima da minha medida.
      Tudo o que escreves é espetacularmente imparcial e de uma consciência e reconhecimento social distintos. Numa situação ideal, estas ideias seriam apresentadas a um público que teria ferramentas para efectivamente avaliar todas as correntes e eventualmente apoiar uma. No entanto, se concordares que temos a mesma visão objectiva sobre o que é este programa e o que representa, concordas que os espectadores deste show são na sua maioria, infelizmente, idosos solitários, desempregados e adolescentes. Pessoas com tempo útil para assistir. Uma faixa caracterizada por não ser muito rica em pesquisa e cultura, no seu geral. É aí que chega o meu “extremismo” neste post. Num mundo ideal, o teu comentário estaria 100% preciso. Mas esta informação não é colhida por todos, não pode ser avaliada por todos, não pode ter efeitos em todos. As consequências desta “imparcialidade” é exactamente o que temos visto. As massas a ganharem força por lhes ser trabalhada a ignorância e o medo.

      Mas olha, muito bom comentário. Vem mais vezes ❤

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